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Dificuldades com contexto, generalização e categorização no Autismo

Por: Instituto Heide Kirst de Formação em Autismo

Pessoas autistas têm um estilo cognitivo diferente daquele das pessoas típicas. Esse dado é fundamental. Em outras palavras, podemos dizer que pessoas autistas têm um modo diferente de pensar. 

Isso pode soar estranho. Em geral, nem passa pela nossa cabeça que isso seja possível. Parece tão natural que todas as pessoas tenham uma maneira semelhante de captar e processar informações que nem nos questionamos sobre isso. Afinal, se não for assim, como é que vamos nos entender? Esse é, justamente, o fator chave que intervém nas relações entre pessoas típicas e pessoas autistas.  

O cérebro das pessoas com autismo é “cabeado” de maneira diferente daquela que se espera e, por isso, elas captam e processam informações de uma maneira que pessoas típicas muitas vezes não conseguem entender. 

Essa diferença se manifesta de maneiras bastante variadas e em artigos anteriores já falamos sobre algumas delas. Neste texto vamos examinar mais três aspectos importantes do estilo cognitivo autista: 

– a dificuldade para captar informações importantes do contexto; 

– a dificuldade para generalizar e 

– a dificuldade para categorizar. 

Habilidades que usamos na vida cotidiana

Captar informações do contexto, generalizar, categorizar… Isso pode parecer muito teórico ou abstrato. Afinal, quem é que, no dia a dia, diz para seu filho “vamos lá, você precisa aprender a generalizar”, ou então, “quer que eu te ajude a categorizar?”. 

Mas… continue lendo mais um pouco e você vai ver que é fácil entender. Até porque estas são habilidades que quase todas as pessoas têm, sem perceber, e que são necessárias  para sermos funcionais no dia a dia.

 

Dificuldade para captar o contexto

Pessoas autistas podem ter dificuldade para captar informações importantes fornecidas pelo contexto. Essa dificuldade também pode ser chamada de cegueira contextual e está relacionada ao foco no detalhe e ao pensamento perceptual, outras características do modo autista de pensar.

Vamos ver como isso se traduz no dia a dia. Num primeiro exemplo, um menino autista chega em casa e sente o cheiro de água sanitária. Ele imediatamente busca sua bolsa de natação porque esse cheiro, para ele, significa uma coisa só: dia de ir à piscina.

Ele não percebe que é apenas a mãe que está limpando a casa e que não é dia de ir à piscina. Ele sente o cheiro característico da piscina, mas não vê que a mãe está às voltas com baldes e panos, que as cadeiras estão em cima da mesa, que o tapete está enrolado num canto, que o chão ainda está úmido… Ele quer absolutamente ir à piscina e não entende o que a mãe tenta lhe explicar. Ela fala muito rápido e, enquanto o menino está tentando processar o que ela disse, ela interrompe o raciocínio dele repetindo o que já tinha dito, só que mais rápido e com palavras diferentes. Isso se repete algumas vezes, o menino vai ficando cada vez mais confuso (e a mãe nervosa) e aí vem a crise. Choro, gritos, uma criança impossível de ser acalmada. 

Um outro exemplo, é o que você pode ver no quadrinho abaixo:

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Esta figura foi usada por Uta Frith em um de seus livros sobre autismo e retomado pela nossa professora Hilde De Clercq no curso O Modo de Pensar das Pessoas com Autismo. O menino sabe nomear os objetos que a professora lhe mostra, porém não entende o contexto. O travesseiro, para ele, parece um ravioli e ele não percebe que, neste contexto, o objeto que ela mostra não pode ser um ravioli.

Cada um desses meninos está focando em um detalhe perceptual e não compreende que ele está inserido em um contexto que contém muitas outras informações relevantes e necessárias para entender o significado da situação.

Uma das tarefas mais importantes na educação de pessoas autistas, em casa e na escola, é ajudar a pessoa a ir além dos detalhes para conseguir enxergar o contexto como um todo. Além disso, é fundamental ensiná-la a se orientar pelas várias informações importantes que fazem parte desse contexto. 

 

Dificuldade para fazer generalizações

A dificuldade para generalizar é outra característica do modo diferente de pensar dos autistas. E o que quer dizer generalizar? Uma pessoa é capaz de generalizar quando consegue transferir uma habilidade ou um conhecimento de um contexto para outro, de uma situação para outra. Ou seja, ela é capaz de usar uma mesma habilidade ou conhecimento em diversas situações diferentes. 

Veja um exemplo bem corriqueiro. Uma pessoa que sabe lavar a louça, em geral sabe lavar a louça em qualquer lugar onde estiver. Ela lava a louça em casa, mas se estiver na casa de amigos também vai saber lavar a louça. Se estiver num camping com a família, vai saber lavar a louça no camping. Isso é generalizar a habilidade de lavar a louça.

No dia a dia, nós sabemos generalizar praticamente todas as nossas habilidades. Sabemos lavar a louça em qualquer lugar onde formos, e também sabemos lavar o cabelo, escrever um bilhete, pedir uma informação, formular uma lista de tarefas, cortar fatias de pizza e a lista poderia continuar por páginas e páginas.

Uma história impressionante

Há uma história bastante impressionante, contada por Hilde De Clercq, sobre um menino que só fazia cocô sentado num assento preto, mas não num assento branco. Em dado momento esse menino foi para um acampamento de férias onde todos os banheiros tinham o assento branco, e ele começou a ter problemas porque não conseguia fazer cocô. Ele não estava apenas concentrado nesse detalhe perceptual – a cor do assento -, mas também não conseguia generalizar.

Ou seja, não conseguia transferir a habilidade de fazer cocô sozinho de um contexto para o outro (e, sim, fazer cocô também é uma habilidade). Você pode ver que dependendo da situação, as consequências podem ser mais ou menos graves. Para a sorte desse menino, havia pessoas que entendiam de autismo nesse acampamento, e o problema foi resolvido. 

Outro exemplo. Digamos que o Marcelo aprendeu a amarrar o sapato em casa. O sapato é marrom com um cadarço marrom. Se ele conseguir amarrar também um sapato de outra cor, ou um tênis, por exemplo, é porque consegue transferir essa habilidade de um objeto para o outro. Se ele também conseguir amarrar o sapato quando está em outros lugares − na escola, no parque, na casa de um amigo − é porque consegue transferir a habilidade de um contexto para outro.

O Fábio, por outro lado, também consegue amarrar o sapato marrom com cadarço marrom. Mas ele só amarra o sapato em casa; quando chega na escola, ele não consegue. Isso significa que ele não está transferindo essa habilidade de um contexto para o outro.

Assim, pode haver crianças com autismo que já deixaram de usar fraldas em casa, mas ainda precisam de fraldas na escola; que falam na escola, mas não falam em casa. Há crianças que, quando estão na escola, ficam sentadinhas à mesa do lanche e se alimentam sozinhas, mas em casa só se aquietam para comer na frente da televisão com alguém dando comida na boca. 

O que familiares e professores podem fazer para ajudar pessoas autistas, é praticar e treinar persistentemente a transferência de habilidades, conhecimentos e experiências para o número mais variado de objetos, contextos e situações. Uma grande aliada nesse tipo de tarefa é a câmera do celular. Podemos filmar a criança fazendo o que ela aprendeu a fazer num contexto e mostrar esse filme em outro contexto. Ela não só vai ter um modelo a seguir, mas o modelo é ela própria!

 

Dificuldade para categorizar

Pessoas autistas também podem ter dificuldade para categorizarclassificar é outra palavra que pode ser usada. E o que vem a ser categorizar ou classificar? Dito de um modo simples, é agrupar elementos que têm algo em comum. Esse é um processo mental da maior importância para organizarmos nossa vida em qualquer nível. Nós agrupamos coisas, pessoas e ideias para conseguir organizá-las e entendê-las.

Usamos a categorização desde as situações mais triviais do dia a dia até situações puramente intelectuais para organizarmos nossas ideias. Quando guardamos a louça ou a roupa lavada, por exemplo, estamos categorizando. Quando decidimos quem convidar para uma festa, decidimos como resolver certo problema surgido no trabalho ou refletimos sobre o que é prioridade para a nossa vida, estamos categorizando, assim como quando planejamos o nosso dia e executamos as tarefas da vida doméstica, da escola ou do trabalho.

E por que isso é importante? Sem categorização, a vida se torna um grande emaranhado de coisas, ações e ideias totalmente desconexas. Nós categorizamos para podermos encontrar as coisas, para podermos encurtar caminho indo mais diretamente ao ponto, para não criarmos confusão misturando pessoas que não se entendem, para concentrarmos atividades afins e gastarmos menos tempo, para evitarmos deslocamentos desnecessários, para não perdermos tempo com o que não é importante. Nós classificamos para otimizar tempo, recursos, energia.

Exemplos e situações

Digamos que você foi ao mercado, comprou uma série de coisas muito diferentes umas das outras. Chegando em casa, você vai guardar as compras e, em geral, vai fazer isso classificando os itens por tipo: farinha junto de outros itens de comida, papel higiênico com outros itens de banheiro, detergente com outros itens de limpeza, legumes e frutas na gaveta de baixo da geladeira. Por que fazemos isso? Para conseguirmos encontrar as coisas depois. 

Mas pessoas autistas podem ter uma dificuldade com a categorização. Por quê? Porque são pensadores visuais. Imagine que uma pessoa autista tenha à sua frente, lado a lado, um sapato social preto lustroso; um tênis velho e gasto com rasgos e um chinelo de dedo. Visualmente, uma coisa não tem absolutamente nada a ver com a outra.

A pessoa típica olha para essa coleção e sabe automaticamente que todos os objetos são calçados que fazem parte de uma só categoria. E como ela sabe isso se são tão diferentes? Porque ela se baseia na função dos objetos: proteger os pés. Na aparência, são variadíssimos. Mas pertencem à mesma categoria, porque têm a mesma função.

Outra situação em que classificar é importante e nas quais estudantes autistas podem ter problemas, é com o material escolar. Cadernos e livros podem ser todos muito parecidos entre si. Se não há nada que os diferencie visualmente, é possível que a criança esteja sempre se confundindo e levando para a escola o material errado.  

Mesmo pessoas autistas muito inteligentes e bem sucedidas profissionalmente podem ter esse tipo de dificuldade. Há pessoas nessa extremidade do espectro do autismo que usam orientação visual para se vestir de manhã porque têm dificuldade para categorizar as peças de roupa e vesti-las na ordem certa. Elas precisam de auxílio para visualizar a sequência: 1. cueca, 2. camiseta, 3. camisa, 4. calça, 5. meias.

Autismo: um espectro

No dia a dia existem muitas oportunidades de utilizar a categorização na vida real. Familiares, cuidadores e educadores podem tirar proveito de muitas dessas situações para ensinar e praticar categorização com a pessoa autista e, assim, melhor habilitá-la para uma vida autônoma.

As dificuldades das quais tratamos nesse artigo não estão relacionadas à inteligência. Elas podem ocorrer em qualquer ponto do espectro do autismo – entre pessoas muito inteligentes, como já comentamos, e entre pessoas que também têm deficiência intelectual. Outra observação fundamental é que ter dificuldades com o contexto, com a generalização e com a categorização não é uma regra no autismo. Há pessoas autistas que não têm esse tipo de dificuldade ou pelo menos não a ponto de não conseguirem manejá-las no dia a dia.

Como em todos os outros aspectos da vida com autismo, é importante e necessário entender o autismo. Além disso, também temos que conhecer a pessoa com quem trabalhamos ou convivemos para entender muito bem suas particularidades porque elas terão grande influência em como o autismo se manifesta nesse caso particular.