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Por que pessoas autistas demoram mais para processar informações?

Por: Instituto Heide Kirst de Formação em Autismo

 “Pessoas autistas pensam de modo diferente do neurotípico. Sem entender esse dado básico, não há como a convivência entre autistas e neurotípicos dar certo.”

Pessoas autistas e pessoas neurotípicas pensam de modos bem diferentes, e as diferenças são muitas. Em outros artigos do nosso blog, já apresentamos várias delas. No texto de hoje vamos falar sobre uma das diferenças que mais impactam o convívio entre típicos e atípicos: nas pessoas com autismo o processamento de informações demora mais para acontecer do que nas neurotípicas. 

No seu livro O que me faz pular, Naoki Higashida comenta, a seu modo, o efeito que essa diferença tem sobre ele: “Vocês, pessoas normais, falam numa velocidade inacreditável. Entre pensar alguma coisa na sua cabeça e dizer, leva apenas uma fração de segundo. Para nós, é como se fosse mágica!”.

 Esse tempo maior que precisa para processar informações pode representar uma dificuldade  em muitas situações da vida da pessoa autista.  

Processamento da informação em etapas

Nossa professora Hilde De Clercq aborda esse assunto no curso O modo de pensar das pessoas com autismo, relatando o que J. Van Dalen diz sobre isso. J. Van Dalen é autista, vive na Holanda e escreveu artigos sobre seu próprio modo de pensar. Num dos artigos, ele explica como enxerga objetos simples, como, por exemplo, um martelo.  

imagem de um martelo

Pessoas neurotípicas, quando enxergam este objeto (ou a imagem dele), sabem imediatamente que se trata de um martelo. Além disso, no mesmo instante, sabem para o que ele serve. Isso quer dizer que a pessoa tem acesso imediato ao significado. Reconhecer o objeto, nomeá-lo e entender sua função acontecem ao mesmo tempo. O processamento da informação é tão rápido que parece instantâneo. 

Van Dalen explica que, para ele, não é assim que acontece. De início, ele vê apenas partes separadas sem relação umas com as outras. No caso do martelo, ele enxerga uma peça mais ou menos cúbica, de metal, e perto dela outra peça, de madeira, em forma de barra. Depois ele vê que essas duas peças se encaixam, e somente então surge a percepção de que essas duas partes, na verdade, formam um só item. O nome do objeto, “martelo”, também não fica acessível de imediato. Ele surge à medida que essa configuração se estabiliza na sua mente. E é apenas no último passo desse processamento que a funcionalidade do martelo se torna clara, quando ele percebe que é um utensílio que serve para trabalhos de carpintaria.

Resumindo…

Fazendo uma síntese, a professora Hilde observa que:

  1º) Van Dalen vê os detalhes: uma peça de ferro e uma peça de madeira;

2º) ele agrupa os detalhes;

3º) ele nomeia o objeto: martelo; 

4º) lhe ocorre a funcionalidade do martelo: objeto usado para trabalhos com madeira. 

A professora Hilde chama de significado o que Van Dalen chama de funcionalidade. E o reconhecimento desse significado ou funcionalidade é apenas o último passo do processamento de informação no cérebro autista.  

O que é preciso ter em mente: para pessoas neurotípicas o acesso ao significado é imediato, automático e, aparentemente, não exige nenhum esforço; para as pessoas autistas, este é o último passo de um processo que passa por várias etapas.

O relato de Donna Williams

Existem outros relatos de pessoas com autismo, muito semelhantes ao de Van Dalen. Donna Williams, australiana, descreve como percebe uma folha de papel, objeto totalmente comum e corriqueiro. Ela diz: “A informação decodificada, ‘branca, plana, fina e quadrada com uma superfície lisa’, é interpretada, resultando no reconhecimento de que aquilo que foi ‘visto’ é ‘uma folha de papel’. O processamento mais profundo, que leva à significância, requer que outras mensagens internas sejam classificadas e transmitidas. A significância me diz o que fazer com a folha de papel: eu preciso do papel para escrever nele.”

Nessa descrição encontramos exatamente as mesmas etapas descritas por Van Dalen. Primeiramente, os detalhes: “branca, plana, fina, quadrada e com uma superfície lisa”. Num segundo momento, o agrupamento dos detalhes. Na terceira etapa, a nomeação do objeto: “folha de papel”. E por último, a significância (ou funcionalidade, para Van Dalen, e significado, para Hilde De Clercq): preciso de uma folha de papel para escrever sobre ela. 

Veja que o significado é sempre a última etapa do processo.

As consequências na vida quotidiana

Essa maneira de processar a informação tem consequências importantes na vida das pessoas autistas, particularmente, na relação delas com as outras pessoas. É muito comum autistas serem percebidos como lentos por colegas, professores, pais e amigos. Quem não entende que eles têm outra forma de processar a informação, pode ficar com a ideia de que são “enrolados”, distraídos, preguiçosos, travados, sem vontade… Porém, nada disso é verdade.

Quando temos a sensação de que a pessoa está distraída porque não reage quando lhe fazemos uma pergunta, ela na verdade está muito ocupada processando aquilo que dissemos e vai levar alguns instantes a mais para reagir. Para neurotípicos, que processam a informação “como num passe de mágica”, isso fica parecendo pura “enrolação”. É importante que entendam que não é disso que se trata.

Na escola

Pense na escola e em todos aqueles alunos que são tachados de lentos ou preguiçosos. Quantas vezes eles estão, na verdade, trabalhando arduamente para processar toda a informação que estão recebendo! É fundamental que professores entendam: 

a) como seus alunos autistas (e outros alunos neurodivergentes) processam toda a informação que recebem; 

b) que seus alunos autistas, em geral, vão levar mais tempo para reagir do que seus colegas neurotípicos. 

Além disso, existe um outro fator que pode dificultar ainda mais essa comunicação. Veja um exemplo. A professora dá a seguinte instrução à turma: “Venham! O tempo está bonito! Vamos ter aula no pátio hoje.” Todas as crianças imediatamente se levantam e correm para fora, mas a criança autista permanece sentada. E a professora, pensando que ela não escutou, insiste: “Venha, vamos para o pátio! Vamos fazer a aula lá fora!”.

A criança, ao ouvir a instrução na primeira vez, começa a processar a informação. Mas não consegue chegar ao final do processamento quando é interrompida pela professora com o que lhe parece ser uma nova instrução, porque as palavras que a professora usou não foram as mesmas. Nesse momento, a criança autista precisa recomeçar todo seu raciocínio do início. 

É bem possível que a criança entenda as palavras em si, mas ela precisa de mais tempo que as outras para decodificá-las e encontrar o seu significado. 

Em outras esferas

Esse tipo de situação acontece o tempo todo, em todos os contextos onde as pessoas circulam. Estamos constantemente perguntando, comentando, sugerindo, discutindo, dando ordens ou instruções às pessoas que estão ao nosso redor, e vice-versa. Pense nas inúmeras situações que acontecem com você, diariamente, no seu trabalho, em casa, na rua, nas compras, nos encontros com amigos… Estamos acostumados a interações que se desenrolam numa velocidades que não admites pausas. Se você demora alguns segundos a mais para reagir, já começa a sentir a pressão do outro por uma resposta, mesmo que a pessoa não diga nada. Não temos tempo para esperar que o outro processe o que dissemos, que pense no que vai responder…

Aprendizado

A lição que as pessoas neurotípicas tem a aprender é que precisam ser pacientes, principalmente se o caminho delas cruza com o caminho de pessoas com autismo. Achamos que não temos tempo para parar e esperar. Bem, temos que achar esse tempo. É simples assim. Esses instantes a mais que a pessoa autista precisa para processar toda a informação que vem do seu entorno, inclusive da nossa interação com ela, precisa entrar também na nossa programação. Não é capricho. É necessidade, solidariedade, humanidade e empatia. Esperar é uma das melhores coisas que você pode fazer por uma pessoa autista.