Por que dedicar um artigo às questões sensoriais das pessoas autistas? O que elas têm de diferente das pessoas neurotípicas neste quesito? Às vezes, nada. Há pessoas autistas que não têm nada de diferente no seu processamento sensorial. No entanto, essas pessoas são uma minoria entre autistas; a maioria delas tem algum tipo de distúrbio no seu processamento sensorial e esse dado é fundamental.
Dito isto, precisamos entender que ter transtornos sensoriais por si só não indica autismo. Há muitas pessoas que têm transtornos sensoriais e não são autistas. Porém, esta é uma característica tão importante no autismo, que ela acabou entrando inclusive nos critérios para diagnóstico do DSM-V, o que antes não era o caso.
“Aprender como funcionam os sentidos de alguém com autismo é a chave para compreender essa pessoa.”. (Jasmine Lee O’Neill)
Para falar sobre o processamento sensorial das pessoas autistas e suas peculiaridades, precisamos primeiro entender, em grandes linhas, como funciona − ou deveria funcionar − o sistema sensorial humano.
Nós passamos 100% do nosso tempo captando sinais que vêm tanto do ambiente onde nos encontramos quanto do nosso próprio corpo. Nosso sistema sensorial é formado por órgãos que captam esses estímulos através de receptores dos nossos diferentes sentidos.
Os estímulos são, por exemplo, os ruídos que ouvimos, as coisas que vemos, os cheiros que sentimos, além das manifestações do nosso corpo como o estômago roncando, o coração batendo, as articulações doloridas e por aí afora.
Nossos sentidos são classificados em diferentes categorias. Em geral, quando pensamos em sentidos, nossa referência são os cinco sentidos clássicos que aprendemos na escola: o tato, a audição, o paladar, o olfato e a visão. Esses são os sentidos da exterocepção, que captam os estímulos que vêm de fora do corpo.
Porém, essa é apenas uma das categorias de sentidos e, para entender as questões sensoriais no autismo, é muito importante saber que nós temos outros tipos de sentidos. Embora tenham efeitos bem mais sutis, eles são essenciais para o nosso processamento sensorial e para o nosso bem-estar.
Os sentidos da interocepção captam sensações que vêm de dentro do corpo, como fome, sede, cansaço e estresse. Eles são importantes para manter o bom funcionamento do corpo e para avisar o cérebro quando algo está diferente.
Os sentidos da propriocepção captam os estímulos que vêm de partes do corpo como membros, músculos, tendões, extremidades e articulações. São sentidos pertinentes à relação das partes do corpo entre si e à posição e orientação do corpo no espaço.
O sentido vestibular está relacionado ao equilíbrio e à postura do corpo.
E como é que funciona esse sistema? Os receptores dos nossos sentidos recebem os sinais, estímulos, informações do ambiente e do nosso próprio corpo e os enviam para o cérebro sob forma de impulsos elétricos. O cérebro recebe esses impulsos e os interpreta.
Uma função importantíssima do cérebro nesse processo de interpretação, é filtrar e priorizar os sinais recebidos. Já vimos que nossos sentidos recebem estímulos e os enviam ao cérebro o tempo todo. Pense em alguma situação que você vive no cotidiano e tente listar todos os estímulos que o seu cérebro precisa manejar em tal situação.
Em praticamente todas as situações que vivenciamos, recebemos uma torrente de informações que seria dificilmente suportável caso nosso cérebro não fosse capaz de filtrá-las. Para que possamos sobreviver, é imprescindível que o cérebro consiga filtrar toda essa informação e priorizar aquilo que importa mais para nós no momento.
Vamos pensar num exemplo. Cláudia está saindo de casa de manhã para pegar o ônibus e ir ao trabalho. Quando ela abre a porta para sair, ela sente que está mais frio do que tinha pensado. Ao mesmo tempo, ela sente uma dorzinha chata no joelho e o cachorro vem correndo do pátio dos fundos, feliz, abanando o rabo, achando que vão passear. Enquanto isso, passa o caminhão do lixo, e atrás dele vêm os lixeiros correndo e gritando.
Os cachorros do vizinho latem furiosamente para os lixeiros. A outra vizinha está mesmo saindo com suas duas crianças para levá-las à escola. Uma das crianças chora porque esqueceu alguma coisa, a outra grita porque não quer se atrasar e a mãe, já nervosa, manda as duas ficarem quietas. O vizinho da frente está saindo de moto, o outro vizinho, que adora conversar, grita um “bom dia”, um carro que passa e buzina para o caminhão do lixo…. E, Cláudia, no meio desse mar de estímulos, consegue se concentrar nas duas informações que importam naquele momento:
a) está fresquinho: ela precisa pegar um casaco e
b) o cachorro não deveria estar solto: é preciso prendê-lo no pátio dos fundos.
O cérebro de Cláudia filtrou e priorizou as informações deixando em segundo plano tudo o que era menos importante naquele momento.
Outra coisa muito importante que o cérebro faz é a integração sensorial. Isso acontece quando o cérebro agrupa e organiza diversas percepções vindas dos sentidos, de modo que a pessoa possa ter uma noção abrangente do que se passa. Por exemplo, uma criança está em casa e vê a mãe em atividade na cozinha, ouve diversos ruídos como o barulho de panelas e talheres, de porta de armários e gavetas abrindo e fechando, sente o cheiro de cebola frita, tenta encostar na panela e sente que está quente etc. O cérebro dessa criança agrupa e organiza todos os estímulos, integra todas essas percepções e, num instante, conclui: a mãe está preparando o almoço. Isso tem a ver com a compreensão do contexto.
E tudo isso é automático e instantâneo. É importante se dar conta da velocidade em que tudo acontece: é uma questão de milissegundos. Todos esses estímulos (e muitos outros!) viajaram dos respectivos receptores até o cérebro, lá foram processados, passaram por uma filtragem e priorização, e foram interpretados. Literalmente, num piscar de olhos!
É assim que funciona o nosso sistema sensorial.
Bem, já explicamos que alterações nesse funcionamento existem na maioria das pessoas autistas, mas não em todas. O que acontece nas pessoas que têm esses transtornos sensoriais é que o cérebro falha ao interpretar o sinal que vem dos sentidos. E aqui há um detalhe importante: não são os sentidos que são deficientes. Eles funcionam normalmente. O que tem um funcionamento deficiente é o cérebro porque ele não processa adequadamente certos estímulos.
O cérebro pode:
– não identificar com precisão sinais que vêm dos sentidos e fazer uma leitura defeituosa;
– não filtrar, priorizar e organizar as informações que vem dos sentidos;
– demorar para executar todo esse processo e, nesse caso, a pessoa vai receber a interpretação com atraso.
Os possíveis resultados dessas alterações no funcionamento cerebral são a hipersensibilidade sensorial, a hipossensibilidade sensorial e/ou flutuações de sensibilidade.
Falamos de hipersensibilidade quando o cérebro não filtra, não prioriza e não organiza as informações recebidas dos sentidos e a pessoa é dominada por uma avalanche de estímulos que ela tem dificuldade para organizar.
Falamos de hipossensibilidade, quando a recepção dos estímulos pelo cérebro é insuficiente ou confusa. Isso pode até não parecer um grande problema; porém, é comprovado que, para sobrevivermos, precisamos de estímulos suficientemente fortes e claros. Dependendo do nível, a hipossensibilidade pode causar enorme estresse e ansiedade.
E as flutuações, como o nome indica, são situações em que a recepção sensorial da pessoa oscila entre hiper- e hipossensibilidade ou entre hiper- ou hipossensibilidade e sensibilidade normal. Não é difícil imaginar a enorme confusão que isso provoca numa pessoa!
No curso As experiências sensoriais das pessoas com autismo, a professora Hilde De Clercq explica vários aspectos importantes a respeito deste tema. Entre outros, ela chama atenção para o fato de que uma pessoa que tem esse transtorno não se encaixa necessariamente em apenas uma das situação: “A pessoa com autismo pode ter hipersensibilidade em um sentido – no canal auditivo, digamos – e hipossensibilidade em outro – no canal visual, por exemplo”. Por isso, não se pode dizer simplesmente, “esta pessoa é hipersensível”. Hipersensibilidade não é uma característica genérica, então essa informação não é suficiente. Temos que especificar, “esta pessoa é hipersensível no canal auditivo”, ou, “esta pessoa é hipersensível no canal olfativo”.
A situação pode se tornar ainda mais complexa, pois a pessoa autista pode ser hipersensível e hipossensível, ao mesmo tempo, no mesmo sentido, dependendo do estímulo. Por exemplo, uma pessoa pode ser hipersensível a buzinas de carros, tendo que tapar os ouvidos cada vez que um carro buzina, e ao mesmo tempo hipossensível ao volume dos vídeos no Youtube, aumentando o volume a ponto de atrapalhar todo mundo que está no mesmo ambiente que ela.
Outro dado fundamental quando se trata de questões sensoriais no autismo, é que quando a pessoa está atravessando um momento de grande estresse ou ansiedade, seus problemas sensoriais aumentam. Todas as situações de que falamos até agora vão variar conforme o nível de estresse e ansiedade em que a pessoa se encontra. Quanto mais estresse, maiores alterações no seu processamento sensorial.
Isso é verdadeiro para todo mundo, mas, como em muitas outras situações, para pessoas autistas isso pode significar problemas muito mais sérios do que para pessoas neurotípicas.
Essas são, em grandes linhas, algumas informações básicas e necessárias sobre o que significa ter disfunções sensoriais. Muitas pessoas autistas consideram que este é o aspecto mais importante do autismo delas já que é o que mais as afeta pessoalmente. Nos próximos artigos vamos aprofundar este tema, vendo como esse transtorno se traduz na vida real dessas pessoas.