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Hipossensibilidade e hipersensibilidade no autismo

Por: Instituto Heide Kirst de Formação em Autismo

“Vocês, profissionais, sempre falam da tríade de dificuldades – dificuldades
de comunicação, de interação social e de imaginação – porque é o que mais incomoda vocês. Mas a mim,
o que mais incomoda são meus problemas sensoriais
.”
(Gunilla Gerland)

 

“Meu problema não era tanto não entender o mundo, mas não conseguir suportá-lo.”
(Donna Williams)

 

Em outro artigo, já vimos em grandes linhas como se dá o processamento sensorial nas pessoas em geral. Falamos de sentidos, receptores, estímulos e do cérebro, que é onde o processamento e a interpretação das informações vindas dos sentidos acontece. Além disso, olhamos rapidamente para o que acontece quando esse processamento e interpretação não ocorrem adequadamente. 

Falamos também dos diferentes sistemas sensoriais − audição, paladar, olfato, tato, visão (sentidos da exterocepção), interocepção, propriocepção e sistema vestibular – e da possibilidade de pessoas terem hipossensibilidade ou hipersensibilidade em qualquer um desses sistemas.

Neste texto, vamos nos demorar um pouco mais sobre o que acontece quando uma pessoa tem hipossensibilidade ou hipersensibilidade nos sentidos da exterocepção.

 

HIPOSSENSIBILIDADE

Lembramos que se fala de hipossensibilidade (ou baixa sensibilidade sensorial) quando o cérebro interpreta de modo muito fraco, vago, confuso ou indefinido as informações vindas dos sentidos. Podemos dizer também, conforme a professora Hilde De Clercq, que o canal sensorial em questão “não está aberto o suficiente, de modo que o cérebro não recebe informação suficiente.” Ou seja, a reação da pessoa é mais lenta ou ausente e, para gerar reação, o estímulo precisa ser mais intenso ou mais prolongado. 

Para pessoas que não têm essas dificuldades sensoriais, é difícil entender o problema que isso representa. O fato é que os seres humanos precisam de estímulos sensoriais suficientes e bem definidos. Sem eles, literalmente não sobrevivemos. Sabe-se, através de estudos (totalmente antiéticos!) feitos nas décadas de 1950 e 1960 no Canadá, que uma pessoa saudável totalmente privada de estímulos sensoriais pode começar a ter alucinações em poucas horas. 

Felizmente, a hipossensibilidade não chega a um nível tão extremo. A pessoa hipossensível capta os estímulos, porém sua resposta é uma subreação. Como consequência, as pessoas que experienciam hipossensibilidade buscam, e às vezes produzem, estímulos mais intensos ou vigorosos para compensar a interpretação vaga que o cérebro faz.

Se você convive com pessoas autistas, provavelmente já observou essa busca por estímulos sensoriais. Veja alguns exemplos.

Gritos e pedra gelada

Diego, que frequentava a Associação Pandorga, quando criança andava sempre com uma pecinha dura de acrílico que ficava batendo na mesa (tec, tec, tec, tec, tec) ou raspando entre os dentes. Com isso ele criava um estímulo auditivo mais forte e definido do que os estímulos auditivos normais do seu entorno e, com isso, conseguia se acalmar. Depois de adulto, ele passou a produzir estímulos auditivos com a própria voz. Emitia gritos tão fortes que assustava as pessoas no seu entorno. 

Mateus, colega de Diego, procurava estímulos táteis mais intensos. Ele caminhava pelo pátio sem parar com os pés descalços e ficava murmurando palavras com a boca encostada nas costas da mão. No inverno (no Rio Grande do Sul), ele tirava a camiseta e se deitava no chão de pedra gelado. Era o retrato da felicidade! 

Esses exemplos mostram como pode ser drástica a necessidade de alimentar os sentidos com estímulos. Há pessoas que gostam de passar objetos ásperos na língua ou então de esfregar a mão numa superfície irregular, como, por exemplo, uma parede de pedra. Às vezes fazem isso até a mão sangrar.  Por causa da hipossensibilidade tátil, muitas pessoas com autismo adoram água.

Piccalilli, urina de gato e ventiladores

Há pessoas que têm hipossensibilidade gustativa. Elas quase não sentem gosto na comida e por isso gostam de alimentos picantes, ardidos, apimentados ou com sabor bem pronunciado. A professora Rita Jordan, no curso Necessidades no TEA e o papel da educação, conta sobre uma menina que adorava piccalilli, uma preparação muito picante à base de vegetais e mostarda. A família tinha que supervisionar a quantidade que ela comia porque, se pudesse, ela comeria um vidro inteiro de uma só vez.

No curso O mundo sensorial das pessoas com autismo, a professora Hilde De Clercq menciona uma amiga autista que adora o cheiro de urina de gato! Eis um exemplo radical de hipossensibilidade olfativa. 

É possível que você já tenha visto em filmes ou ouvido relatos de pessoas autistas que gostam de ficar olhando um ventilador ou uma máquina de lavar roupa girando. Outras pessoas gostam de olhar para luzes brilhantes. Todas elas são maneiras de intensificar estímulos visuais.

Hipossensibilidade e autolesão

Entre outras consequências negativas, a hipossensibilidade pode levar à autolesão. Em alguns casos, a necessidade de produzir estímulos sensoriais bem claros e definidos faz com a pessoa acabe se machucando e, às vezes, esses ferimentos podem ser muito sérios.

Já falamos sobre pessoas que esfregam partes do corpo em superfícies ásperas criando feridas.  Elas também podem bater com o punho contra a cabeça, as orelhas ou o olho. Elas podem bater continuamente com a cabeça no chão ou na parede. Há casos de pessoas autistas que ficaram cegas de tanto bater a cabeça. 

Há pessoas que se mordem ou se arranham, principalmente nos braços e pernas. Quando a ferida seca, arrancam a casquinha para obter um estímulo claro e bem definido.

Mas, atenção! Nem sempre a autolesão está relacionada à hipossensibilidade. Algumas pessoas se autolesionam como reação à dor: elas podem estar sentindo uma dor muito difusa, sem origem clara, e se ferem para sentir uma dor mais definida. Esse é mais um motivo para termos sempre muito cuidado no momento de analisar comportamentos: pode parecer uma coisa e ser bem outra. 

 

HIPERSENSIBILIDADE

Existe uma ideia generalizada de que pessoas autistas são hipersensíveis principalmente a luz e a sons e que todas elas gostam de ambientes silenciosos e com luminosidade atenuada. Na verdade, como já estamos vendo, é bem mais complicado que isso. 

Ser hipersensível significa ter uma percepção mais aguçada e uma reatividade “anormal” a estímulos sensoriais que fazem parte da vida diária, ao ponto que esses estímulos se tornam desconfortáveis para a pessoa. 

Também podemos dizer que o canal sensorial em questão está aberto demais e entram mais informações no cérebro do que ele consegue manejar. Algumas pessoas chegam a sentir dores intensas por causa de estímulos que normalmente não causam dor. 

Além disso, existe outro fator que torna a questão da sensibilidade bastante complexa. A respeito disso, Donna Williams disse o seguinte: “Se o estímulo viesse de fora, era um inferno. Se fosse provocado por mim mesma, era o paraíso.” Portanto, um mesmo estímulo pode ser agradável ou insuportável, dependendo de sua origem. 

Em geral é verdade que, se o estímulo é provocado pelo próprio indivíduo, ele não se torna um problema. Por isso, não se trata apenas de entender qual tipo de estímulo pode gerar uma reatividade fora do normal, mas entender qual é sua origem.

Veja alguns exemplos de fatores aos quais pessoas autistas frequentemente têm hipersensibilidade:

Audição

O ruído de lâmpadas fluorescentes, do ar condicionado ou da geladeira; latidos de cachorros que podem estar a quadras de distância; a voz de certas pessoas (imagine se for a voz da professora!); a conversa de pessoas em outros cômodos da casa (atenção quando este for o caso!); o burburinho de pessoas conversando. 

Muitas crianças autistas abandonam a escola porque não suportam o barulho, não só da conversa das pessoas ou da voz da professora, mas também do giz no quadro, do lápis no papel, da porta abrindo e fechando, de cadeiras se arrastando, de objetos caindo no chão…

A professora Hilde De Clercq dá o exemplo de um menino que, estando no décimo andar de um prédio, com janelas fechadas, ouvia o ruído de alguém varrendo a calçada. 

Visão

Certos tipos de luz artificial como lâmpadas comuns; a claridade do sol que entra pela janela (por isso, um estudante autista sentado ao lado da janela na sala de aula pode não conseguir se concentrar); certos contrastes ou combinações de cores (por exemplo, um piso preto e branco ou as letras pretas no papel branco); o reflexo do sol na água ou em superfícies metálicas; locais com muita informação visual.

Tato

As etiquetas na parte interna da roupa que raspam a pele como se fosse uma escova de aço; roupas ou sapatos podem dar a sensação de pesar dezenas de quilos; certos materiais em contato com a pele – há relatos de pessoas que não suportam usar joias ou o contato com qualquer objeto de metal, outras que não suportam pisar na areia, por exemplo; a textura de certos alimentos na boca; pingos de chuva ou do chuveiro na pele podem causar dor; sentir dor ao cortar o cabelo ou as unhas.

Paladar

Certos alimentos (por exemplo, queijos, verduras, carne) podem causar náusea; alimentos picantes ou muito temperados e, às vezes, até mesmo alimentos pouco temperados. Pessoas com o paladar hipersensível muitas vezes também não suportam misturar alimentos; elas precisam sentir o gosto de cada alimento separadamente para ter certeza do que estão comendo.

Olfato

O cheiro de certos alimentos; o cheiro de produtos de limpeza ou produtos de higiene (desodorantes, sabonetes, cremes); o cheiro de certas pessoas (pode acontecer de uma criança evitar uma pessoa, não porque não gosta dela, mas porque não suporta o cheiro); cheiro da descarga de automóveis; cheiro das próprias fezes (há pessoas que evitam ir ao banheiro por isso); também pode haver hipersensibilidade a cheiros bem específicos de certos lugares (uma certa loja ou casa, uma piscina), de certos produtos (uma marca específica de suco, de salgadinho…) ou de certos materiais (madeira, couro, jornal…).

 

FLUTUAÇÕES

Entre hipossensibilidade, hipersensibilidade e sensibilidade normal, ainda existem as flutuações, ou percepções inconsistentes. Algumas pessoas podem ser hipossensíveis em um sentido e hipersensíveis em outro. Por exemplo, hipersensíveis à luz do sol e hipossensíveis ao som da TV. 

O que é realmente perturbador, é que às vezes uma pessoa é hipossensível e hipersensível no mesmo sentido, dependendo do estímulo. Por exemplo, ela é hipersensível a um tipo de luz e hipossensível a outro tipo. A sensibilidade também pode variar ao longo do tempo, depender do contexto, do estado mental da pessoa e de vários outros fatores. 

É importante saber que isso acontece e não é incomum, porque pode ser muito confuso. Podemos pensar que a criança está brincando conosco quando a chamamos pelo nome e ela parece não ouvir e no momento seguinte se assusta com um leve rangido de porta. Há crianças que caem, ralam o joelho na pedra e parecem não sentir nada, e mais tarde choram de dor porque alguém deu uma leve cotovelada nela sem querer. 


CARACTERÍSTICAS SENSORIAIS SÃO ESSENCIAIS

No DSM-V, problemas de processamento sensorial passaram a fazer parte dos critérios de diagnóstico do autismo. Isso mostra a importância desses efeitos nas pessoas. Muitos autistas dizem que, para eles, esse é o principal problema. 

Ao mesmo tempo que não se pode pensar que isso é o autismo, também não se pode ignorar as questões sensoriais. Com frequência, comportamentos de estresse, comportamentos repetitivos, problemas alimentares e problemas de sono, entre outras dificuldades enfrentadas por pessoas autistas, têm sua origem nas questões de sensibilidade.

Embora tenham tanta importância, hiper- ou hipossensibilidade não são tão bem definidas que seja possível colocar cada pessoa autista numa caixinha com suas características sensoriais. As variações possíveis são imensas. Há muitas situações que podem parecer uma coisa e, no final das contas, são uma questão de sensibilidade. O contrário também acontece; achamos que é uma questão de sensibilidade e não é. 

É comum que diferentes características do autismo se “misturem”, ocorram ao mesmo tempo e não podem ser facilmente separadas. As questões sensoriais podem se misturar com o problema de significado, o monotratamento da informação, o hiperfoco, a necessidade de previsibilidade, os comportamentos repetitivos e outros.

Hoje se sabe que conhecer o mundo sensorial da pessoa autista com quem convivemos é fundamental. Situações banais para pessoas típicas podem estar causando problemas muito profundos para a pessoa autista. Levando a sério essas sensibilidades, temos a chance de evitar crises e muitos incômodos − para a pessoa autista e para as outras.