Em artigos anteriores, falamos sobre o processamento sensorial no autismo e, mais especificamente, sobre hiper-e hipossensibilidade. Neste texto, você vai ler os relatos de três mulheres autistas adultas sobre suas experiências, às vezes cotidianas, com a sobrecarga sensorial.
Dulce é professora do ensino fundamental e está a poucos anos da aposentadoria. Há poucos anos descobriu que é autista.
A aprendizagem que era muito visual ia às mil maravilhas, já que o silêncio era palavra de ordem no final dos anos 60 e início dos anos 70.
No entanto, os horários de recreio e os momentos de barulho tornavam-se devastadores para mim. Chorava muito e, ao me questionarem, não sabia dizer por que estava incomodada. (…)
O barulho dos meus irmãos mastigando ou batendo com o lápis ou um brinquedo me devastava e eles me chamavam de fresca e chata.
Na realidade, me achavam uma estraga prazeres. Eu fui crescendo e isso me acompanhou. (…)
Em aula tenho dificuldade com barulho. Mas tento lutar contra isso.
Qualquer ruído me tira do ar e é insuportável a ponto de eu sentir náuseas e dor de cabeça. A sala dos professores nem se fala. Festa com música e aglomeração pior ainda.
Quando tenho que ir a eventos e formações, eu enfrento. Mas procuro sentar só e, depois que acaba, chego a ficar dois dias de cama. Festinhas da escola com as crianças eu faço, pois sei que é preciso, mas já planejo para sexta para depois poder ficar dois dias no silêncio.
Quando meus filhos eram pequenos, eu, no final do dia, pedia uma hora para eu me recuperar do dia, para depois conversarmos.
O problema é que os anos passam e está sendo desesperador para minha cabeça tudo isso.
Márcia é autista, tem pouco mais de 40 anos e atua numa grande empresa multinacional.
É difícil você ter no dia a dia situações que não envolvam um grupo de pessoas. Andar no trem eu desisti. Porque eu tenho que fazer três paradas pra ir daqui de São Leopoldo até Porto Alegre. São 45 minutos de trem, e eu desmaio no trem por causa do barulho, do cheiro, por causa do movimento de pessoas, eu desmaio. Então, eu tenho… eu começo, assim, a me sentir mal, eu desço. Aí eu entro de volta, e eu desço. São três vezes, no mínimo, de paradas que eu tenho que dar. Mas, as pessoas olham pra mim e dizem “Ah, ela não tem nada.” Mas é o que acontece. Ônibus lotado, eu passo mal. Aí eu parei de pegar ônibus.
A gente tinha planos de emergência dentro do trem. Eu passava mal … eu já sei quando eu tô começando a … quando começa a ficar … porque o meu batimento cardíaco aumenta e eu tenho um reloginho cardíaco que me diz … um reloginho cardíaco pra não ter erro, então ele me diz. Começou a aumentar o batimento cardíaco, eu comecei a suar frio, já sei que eu tô … que o […] está me prejudicando. Porque meu corpo faz isso, ele desliga. Quando há sobrecarga sensorial, ele desliga.
E eu passei a adolescência inteira desmaiando em shows. Eu ia num show de rock – é normal, todo mundo vai, só que eu era autista, e eu não sabia que eu era autista. Então, eu ia num show de rock e eu desmaiava. Todos os shows eu desmaiava. Aí me levavam pro posto médico. Quando eu saía do ambiente do […], na hora eu melhorava. Era só sair da muvuca, eu saía e melhorava. E aí vinha a enfermeira e queria me dar injeção de glicose porque achava que eu tinha bebido. “Não, eu não bebi.” Tá, eu só precisava sair daquele ambiente. Aí eu melhorava, saía dali, voltava. Aí eu aguentava mais um tempo. Claro que a ressaca social depois era de uma semana. Mas eu queria ir. Eu queria estar junto, eu queria fazer as mesmas coisas que as pessoas faziam. Não tem show de rock especial, com alguma coisa diferente. Então, é assim, você vai ter que tolerar, por isso que você tem que ir aos poucos e se dessensibilizando.
Tava tão alto o barulho no supermercado que eu travei. Eu não sabia o que fazer, eu não conseguia olhar minha lista e ver o que eu tinha que pegar. Eu travei. E até recompor demora, e eu tinha que terminar e eu fiquei um tempão ali, com aquela música, esperando por poder me organizar novamente, por poder ver o que é que eu tinha que fazer pra poder sair daquele ambiente … Ou se o teu filho está lá jogado no supermercado porque não aguenta aquela musiquinha irritante – que eu já cheguei a pedir pra baixar, e o gerente negou baixar. Eu falei assim: “Tem duas pessoas autistas no estabelecimento. Você tá com essa música muito alta. Baixa esse volume.” “Ah, não. Não podemos. É norma da empresa.” Eu não pedi pra ele tirar a música. Se quer deixar aquele jinglezinho irritante, deixa. Mas baixa o volume. Porque eu não conseguia terminar as compras. Ir no supermercado são quatro horas deitada. Já fiz a conta. Uma idinha no supermercado, eu tenho que ficar … são quatro horas, é dois filmes em sequência, isolada, que é o que dá pra fazer.
Marisa é uma mulher autista de meia idade, ex-bancária.
Quanto ao que faço na minha vida, sou oficialmente bancária (ainda vinculada ao banco pelas leis trabalhistas), mas não trabalho desde 2018 (aposentadoria por invalidez por transtorno bipolar e transtorno de ansiedade geral). Trabalhei por 12 anos separada de meus colegas e clientes em um escritório a parte, fechado e silencioso, onde minha principal tarefa era encontrar erros cometidos por meus colegas de filial em suas operações. Tive que encontrar os erros, a base normativa para sustentar minhas conclusões (eu era uma biblioteca ambulante das normas e regras do banco!), provar aos meus colegas que sua operação estava errada e ajudá-los a consertá-las dentro do prazo. Foi uma tarefa muito meticulosa e eu estava muito atenta aos detalhes (demais, segundo pessoas “normais”).
E aí, um belo dia, o banco extinguiu meu cargo e eu fui designada para o departamento de serviço público das empresas. Não conseguia falar com os clientes, nem pessoalmente, nem ao telefone (só falo com a minha família e médicos – quase nunca falava com os meus colegas). A luz, o ambiente lotado (colegas e clientes), o barulho, as reuniões de equipe e as “milhares” de tarefas simultâneas me deixavam tão doente que tive várias panes e crises, e o banco não sabia o que fazer comigo. Pensei que iam me demitir, que eu era inútil, então tentei suicídio. Passei um tempo em uma clínica especializada e depois fui para a aposentadoria através da Agência Nacional de Previdência Social.
Aceitar o diferente e incluir passa por conhecer a história das pessoas e ouvir o que elas têm para contar. Quantas pessoas à nossa volta vivem dificuldades totalmente insuspeitas ao nosso olhar! Mas são esses relatos que nos dão acesso a conhecimentos importantes para sermos capazes de modificar nosso entorno e nossos locais de vida, de modo a acolher também as pessoas que são diferentes de nós.